A Alegria como "Dever", não como "Lazer"

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A alegria bíblica não é algo natural e espontâneo, por isso as Escrituras mantêm um tom solene mesmo em seus momentos de celebração.

No contexto bíblico, a alegria não é um sentimento passageiro que simplesmente acontece com o indivíduo, como ocorre na esteira hedônica, onde o prazer é volátil e exige estímulos cada vez maiores, mas sim uma disciplina exercida ativamente. Ela é apresentada como uma postura espiritual profunda e um dever.

Um exemplo marcante é o comportamento do apóstolo Paulo. Quando ele escreve a famosa ordem para que os fiéis se alegrem sempre, ele o faz de dentro de uma prisão, aguardando um julgamento que poderia resultar em sua morte. 

Isso demonstra que a alegria bíblica não é circunstancial; ela não depende de as coisas estarem indo bem. Trata-se de um ato de vontade e resistência, uma escolha consciente de manter o foco na esperança e na promessa divina, independentemente do sofrimento físico ou da privação de liberdade.

 

A Bem-Aventurança frente à Fragilidade do Sentimento


Essa profundidade também se reflete no conceito de bem-aventurança. No original grego, a palavra usada por Jesus no Sermão da Montanha descreve um estado de satisfação que está acima dos infortúnios do mundo. O paradoxo de Jesus ao dizer que são felizes aqueles que choram revela que essa alegria é a certeza de um desfecho positivo, e não a euforia de um momento específico.

Além disso, a Bíblia descreve a alegria como um fruto do Espírito, o que altera completamente sua natureza. Enquanto a alegria secular funciona como uma faísca externa que brilha intensamente e se apaga rápido, o fruto é algo orgânico que cresce de dentro para fora através de um processo de amadurecimento. 

Por ter essa origem interna e sólida, a alegria bíblica manifesta-se com a consistência da paz e da paciência. Ela não é volátil como a alegria sem Deus, e por isso carrega uma profundidade e um valor que o riso despreocupado não possui.

Portanto, a distinção entre o riso fugaz e o gozo espiritual é o que define o tom das Escrituras. Enquanto a alegria natural busca muitas vezes o esquecimento dos problemas ou a evasão da realidade, a alegria bíblica é a ferramenta para enfrentar essas mesmas adversidades com convicção. 

Até mesmo a imagem bíblica do banquete em Isaías 25:6-9 , que remete a vinho e celebração, carrega uma solenidade: é o alívio de quem sobreviveu a uma guerra e celebra a justiça estabelecida. 

A Bíblia nunca soa superficial porque trata a alegria como algo precioso e custoso, uma conquista da alma que permanece firme mesmo quando o cenário ao redor é de absoluta seriedade.