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| Crédito Imagem: CC0 |
A compreensão comum externa sobre a vida espiritual muitas vezes naufraga no equívoco de que a caminhada cristã seja fruto de um adestramento pelo medo.
Essa visão reduz a fé a um conjunto de regras impostas por uma ameaça de punição, criando um cenário onde o indivíduo obedece apenas para evitar o "açoite".No entanto, a obediência que nasce exclusivamente do pavor é frágil, superficial e jamais poderá ser considerada uma experiência religiosa verdadeira.
A religião baseada no medo produz hipócritas que escondem seus desejos sob uma máscara de conformidade, enquanto o coração permanece em rebeldia.
A diferença fundamental reside na natureza do relacionamento com o Criador. Enquanto o medo afasta e gera ressentimento, o amor atrai e gera transformação.
O exemplo mais contundente dessa distinção aparece no episódio do gadareno. Naquela narrativa, os seres espirituais que oprimiam o homem demonstraram um reconhecimento imediato da soberania de Jesus, mas esse reconhecimento estava impregnado de pavor.
Eles acreditavam e tremiam, porém suas vontades permaneciam perversas. O medo que sentiam diante da luz não os levou à adoração, mas ao desespero de serem atormentados. Eles reconheceram o poder, mas rejeitaram a presença.
O Despertar da Gratidão
Em contraste absoluto, o homem que foi liberto por Cristo não permaneceu em um estado de servidão amedrontada.Embora as Escrituras não detalhem como evoluiu a caminhada de fé inteira dele, a narrativa de sua gratidão profunda e o desejo imediato de estar junto de Jesus indicam um solo fértil onde o amor cria raízes.
Essa busca pela presença divina nos leva à experiência de Davi, que subverte a ideia de que a lei é um fardo ao declarar seu amor fervoroso pelos estatutos de Deus.
Para Davi, os mandamentos não eram correntes, mas prazer e meditação constante, revelando que a obediência não vem por coação, mas por um deleite profundo na vontade daquele que o criou.
Onde o ímpio (em sua resistência ainda transitória) ou os seres de Gadara (em sua oposição definitiva) enxergam uma imposição, Davi enxerga a doçura do mel, provando que a lei só se torna liberdade quando é mediada pelo amor.
O crítico externo muitas vezes falha em captar essa nuance, pois confunde o temor reverente com o medo servil. O temor bíblico não é o pavor de um réu diante de um carrasco, mas o respeito profundo e a admiração de quem compreende a santidade e a bondade de Deus.
O despertar da alma ocorre quando o indivíduo para de fugir de um juiz implacável para descansar nos braços de um Autor cuidadoso, compreendendo que a verdadeira liberdade não está em ser o senhor do próprio destino, mas em ser amado por Quem sustenta todas as coisas.
Afinal, a verdade que liberta não é aquela que se impõe pelo pavor, mas aquela que se revela tão bela que torna a obediência o nosso maior prazer.
