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| Debaixo do sol, tudo o que a mão tenta agarrar escapa por entre os dedos. Crédito Imagem: CC0 |
O ponto de partida do livro de Eclesiastes é a declaração categórica de que “tudo é vaidade” (Ec 1:2). No hebraico original, o termo utilizado é hevel, que literalmente significa vapor, sopro ou névoa passageira. Ao observar os ciclos infindáveis da natureza, o nascer do sol e o curso dos ventos, o texto constata que a atividade humana repete padrões sem jamais saciar a alma ou alterar a ordem fundamental das coisas.
O autor faz o balanço da própria vida: o que a humanidade mais ambiciona, ele teve. Buscou sentido na erudição, na sabedoria filosófica, na construção de palácios e nas riquezas materiais. A conclusão, contudo, é implacável: “quanto mais sabedoria, mais sofrimento; quanto mais conhecimento, mais desgosto” (Ec 1:18); e o prazer buscado como fim revela-se igualmente vazio (cf. Ec 2:1-2).
Resta um limite que nenhuma conquista atravessa: a morte. O Pregador observa que o mesmo destino alcança o sábio e o tolo (Ec 2:14-16). "Todos vão para o mesmo lugar; todos vêm do pó, e ao pó todos retornam" (Ec 3:20). A pretensão de construir, por conta própria, um sentido que se sustente ou um legado que desafie o tempo esbarra nessa constatação, e toda segurança erguida sobre bases puramente mundanas rui diante da brevidade dos dias.
Diante desse abismo, ecoa a pergunta inevitável: “Quem sabe se o fôlego do homem sobe às alturas e o fôlego do animal desce à terra?” (Ec 3:21). Debaixo do sol, tudo o que o olhar alcança é o pó compartilhando o mesmo destino biológico; a razão humana e os sentidos simplesmente não conseguem ultrapassar esse horizonte. Fica evidente que, deixado apenas à própria observação terrena, o ser humano não tem como responder sobre o amanhã de sua alma — dependendo, inevitavelmente, daquilo que transcende este chão.
O texto não resvala no niilismo; pelo contrário, opera uma virada de perspectiva ao orientar o olhar humano para a aceitação de seus próprios limites. Não se trata de desprezar o terreno, mas de deixar de contemplá-lo apartado do eterno. Só então o pão, o vinho e o fruto do trabalho deixam de ser matéria de acúmulo e passam a ser acolhidos como «dom de Deus» (Ec 3:13; 9:7)..
É desse horizonte que emana o chamado final à reverência e à obediência, condensando a experiência humana em poucas palavras: “teme a Deus e obedece aos seus mandamentos, porque isso é o essencial para todo homem” (Ec 12:13). Diante disso, a transcendência se revela prerrogativa divina — e qualquer esforço para preencher o anseio de eternidade com ilusões passageiras reduz-se a correr atrás do vento. Só em Deus a vida encontra chão seguro.
