Betesda: Entre a Crendice e o Cristo (João 5:1-8)

Ruínas de Betesda - Crédito Imagem: Franco56

No Tanque de Betesda, um homem que sofria de paralisia há trinta e oito anos vivia a angústia de depender de um evento específico para sua cura.

Embora não se saiba de qual região ele era ou há quanto tempo frequentava aquele lugar, o relato mostra que ele buscava a cura por meio da crença de que a movimentação ocasional das águas trazia poder restaurador.

Essa cena no livro de João revela uma dinâmica de milagres singular. A lógica ali operante era fruto de uma superstição local que impunha uma espécie de burocracia do milagre.

Para aquele homem, os trinta e oito anos de paralisia representavam uma sentença de exclusão perpetuada por essa expectativa ilusória.

Ele vivia em um ambiente onde a cura era percebida como um evento intermitente e competitivo, criando um paradoxo peculiar onde apenas os que ainda tinham alguma agilidade física conseguiriam aproveitar o suposto momento certo, enquanto os totalmente prostrados, como ele, eram deixados para trás na poeira dos pórticos.

Sua frustração, expressa na frase sobre não ter ninguém que o ajudasse no momento da agitação da água, resume o isolamento de quem observa a vida passar e as oportunidades serem tomadas por outros mais rápidos ou mais bem assistidos. 

Não podemos mensurar quantas tentativas frustradas aquele homem enfrentou para tentar se ajustar a um ritmo que seu corpo simplesmente não podia acompanhar. 

Sua luta solitária expunha a face cruel daquele cenário: a de que, sob a lógica da crendice popular, a misericórdia era um recurso escasso. Ali, o favorecimento de um dependia obrigatoriamente da derrota ou da lentidão dos demais.


Jesus: A Palavra que Dispensa o Ritual


A presença de Jesus ali ignora completamente essa engrenagem de espera e esforço; Ele não valida o ritual da água, mas foca na vontade do homem, quebrando a burocracia do tempo e as limitações da imaginação popular para oferecer uma restauração plena que não depende de movimentos externos, mas apenas de sua palavra de autoridade.

Essa episódio funciona como uma crítica a qualquer religiosidade que impõe barreiras ou "pedágios".

Ao caminhar especificamente até o homem que estava fora do tempo da sorte, Jesus demonstra que a verdadeira espiritualidade não opera por meio de fórmulas mágicas ou competições físicas, mas por meio do encontro direto e da compaixão que ignora as regras de um sistema falho. 

Esse cenário repercute claramente na religiosidade moderna, que parece, em muitos casos, retroceder a rituais antigos e à dependência de acessórios ou amuletos como pilares da fé.

Ao enfatizar tais artifícios, corre-se o risco de esquecer que o fundamento do ensinamento de Jesus é a existência de um intercessor direto, eliminando a necessidade de qualquer burocracia mística para se alcançar a presença soberana divina.