Caminho de Emaús e Salmos: O Encontro do Histórico com o Profético (Lucas 24:13-35)

Crédito Imagem: Jan Wildens - Domínio Público


Assim como ocorre no caminho de Emaús, a revelação de Jesus nos Salmos não se apresenta de forma óbvia ou estática, mas surge como um vislumbre em meio ao cotidiano. À semelhança de Cristo, que caminhou ao lado daqueles homens como um estranho, ocultando sua glória submetido a uma aparência comum, as promessas messiânicas ladeiam as dores, as angústias e as vitórias históricas do rei Davi ou dos outros salmistas.


No percorrer dos versos, o leitor muitas vezes sente que está ouvindo apenas a voz de um homem perseguido, cansado ou esperançoso. Contudo, em determinados momentos, o texto sofre uma espécie de transfiguração. É como se Jesus "entrasse na conversa" de forma súbita, quando o salmista começa a descrever sentimentos ou eventos que transbordam a sua própria realidade humana. Ao lermos sobre mãos traspassadas, vestes sorteadas ou a preservação de um corpo da corrupção da morte, percebemos que a voz humana silenciou para que a voz do Filho de Deus pudesse ecoar.


Essas inserções proféticas funcionam como o partir do pão na mesa de Emaús. Há um instante de reconhecimento profundo no qual a identidade de quem fala se torna clara, e o coração do leitor, assim como o dos discípulos naquele momento, arde diante da compreensão das Escrituras. Mas, logo após essa revelação intensa, a narrativa volta ao seu curso normal, e Jesus parece "sumir" novamente entre os versos que tratam de leis, sacrifícios ou batalhas terrenas. Essa dinâmica de aparecer e desaparecer mantém o Livro vivo, exigindo do leitor sensibilidade para perceber quando o Mestre decide se manifestar na leitura.


Deus orquestra a dor e a alegria humana para que sirvam de cenário aos mistérios do Messias. Sob essa luz, a vida de Davi torna-se a sombra, e Jesus o corpo que a projeta.