Como o "Solo Espinhoso" trata a Bíblia? (Mateus 13:22)

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Ao narrar a parábola do semeador, Jesus adverte que o solo espinhoso é aquele onde a semente do evangelho até encontra abrigo, mas acaba sufocada pela continuidade do foco nesta vida. 

Esse solo não rejeita a Bíblia com a agressividade do ateu, nem com a indiferença do ignorante; ele a trata com uma cordialidade estéril que é, talvez, a forma mais sofisticada de resistência ao Sagrado.

Para o solo espinhoso, as Escrituras não funcionam como um martelo que quebra a rocha, mas como um objeto de adorno intelectual ou um amuleto de conforto psicológico. 

Ele é capaz de citar versículos com precisão e admirar a estética das parábolas, mas essa admiração serve como uma camada isolante que impede a semente de tocar as raízes da sua vontade. 

Ele reconhece a autoridade do texto no campo da teoria, mas nega sua eficácia no campo da prática, mantendo o Livro Sagrado em uma gaveta metafórica onde a luz da verdade é mantida sob controle para não ofuscar o brilho das ambições terrenas.

Em tal solo, as Escrituras sofrem o processo da compartimentalização. O indivíduo permite que Deus fale sobre a eternidade, mas proíbe que Ele opine de fato sobre sua vida. O texto bíblico é lido, mas nunca é permitido que ele leia o leitor. 

O solo espinhoso aceita o Cristo que salva, pois isso traz um certo alívio mental, mas rejeita o Cristo que governa, uma vez que exigiria a poda dos espinhos que sustentam seu comportamento e seu senso de controle. 

A semente chega a germinar, mas o crescimento é bloqueado por uma floresta de urgências cotidianas que o indivíduo considera mais reais e imediatas do que as promessas eternas.

O solo espinhoso trata a Palavra como um documento de concordância passiva: ele concorda com o texto para não ter que se submeter a ele. 

Ao elogiar a beleza da mensagem, ele sente que já cumpriu seu dever espiritual, anestesiando a consciência contra o chamado ao arrependimento. 

Assim, a Bíblia permanece intacta, imponente e sagrada na prateleira de sua vida, enquanto o coração continua sendo governado pelos mesmos espinhos de sempre. 

Ele professa a verdade com os lábios para ter o direito de ignorá-la com o coração, provando que é possível carregar o Livro da Vida enquanto caminha resolutamente em direção ao vazio de si mesmo.


A Mão do Agricultor sobre os Espinhos

A transformação desse solo em solo bom não nasce da dor em si, mas da ação da Graça, que muitas vezes se serve da pedagogia da dor como uma lâmina bendita. 

Entretanto, a eficácia dessa poda, já conhecida de antemão pelo Agricultor, manifesta-se na resposta do solo: enquanto para uns a dor produz o quebrantamento que conduz à vida, para outros, o mesmo sofrimento pode resultar apenas em remorso estéril ou revolta endurecida.

É nesse limiar que se revela a condição real do coração, pois Deus, o supremo Agricultor, sonda as intenções mais profundas e distingue entre o choro do arrependimento e o lamento do orgulho ferido. 

É necessário que as crises sequem a floresta de urgências mundanas para que se veja o que resta sob os espinhos.

Quando o deserto silencia as distrações, o indivíduo é confrontado com a escolha final: render-se à mão que poda ou endurecer-se contra ela. 

Somente diante da rendição contrita é que a semente do Evangelho deixa de ser um adorno para se tornar o sustento da vida, demonstrando que a misericórdia de Deus é capaz de redimir o terreno mais sufocado, desde que este não se feche definitivamente à voz do Criador.