![]() |
| Crédito Imagem: PxHere |
Ao narrar a parábola do semeador, Jesus adverte que o solo espinhoso é aquele onde a semente do evangelho até encontra abrigo, mas acaba sufocada pela continuidade do foco nesta vida. Esse solo não rejeita a Bíblia com a agressividade do ateu, nem com a indiferença do ignorante; ele a trata com uma cordialidade estéril que é, talvez, a forma mais sofisticada de resistência ao Sagrado.
Para o solo espinhoso, as Escrituras não funcionam como um martelo que quebra a rocha, mas como um objeto de adorno intelectual ou um amuleto de conforto psicológico. Ele é capaz de citar versículos com precisão e admirar a estética das parábolas, mas essa admiração serve como uma camada isolante que impede a semente de tocar as raízes da sua vontade.
Ele reconhece a autoridade do texto no campo da teoria, mas nega sua eficácia no campo da prática, mantendo o Livro Sagrado em uma gaveta metafórica onde a luz da verdade é mantida sob controle para não ofuscar o brilho das ambições terrenas.
Em tal solo, as Escrituras sofrem o processo da compartimentalização. O indivíduo permite que Deus fale sobre a eternidade, mas proíbe que Ele opine de fato sobre sua vida. O texto bíblico é lido, mas nunca é permitido que ele leia o leitor.
O solo espinhoso aceita o Cristo que salva, pois isso traz um certo alívio mental, mas rejeita o Cristo que governa, uma vez que exigiria a poda dos espinhos que sustentam seu comportamento e seu senso de controle. A semente chega a germinar, mas o crescimento é bloqueado por uma floresta de urgências cotidianas que o indivíduo considera mais reais e imediatas do que as promessas eternas.
O solo espinhoso trata a Palavra como um documento de concordância passiva: ele concorda com o texto para não ter que se submeter a ele. Ao elogiar a beleza da mensagem, ele sente que já cumpriu seu dever espiritual, anestesiando a consciência contra o chamado ao arrependimento.
Assim, a Bíblia permanece intacta, imponente e sagrada na prateleira de sua vida, enquanto o coração continua sendo governado pelos mesmos espinhos de sempre. Ele professa a verdade com os lábios para ter o direito de ignorá-la com o coração, provando que é possível carregar o Livro da Vida enquanto caminha resolutamente em direção ao vazio de si mesmo.
A Mão do Agricultor sobre os Espinhos
A transformação desse solo em solo bom está ligada à pedagogia da dor, na qual a Graça atua como uma lâmina bendita. Entretanto, a eficácia dessa poda, já conhecida de antemão pelo Agricultor, depende da resposta do solo: enquanto para uns a dor produz o quebrantamento que conduz à vida, para outros, o mesmo sofrimento pode resultar apenas em remorso estéril ou revolta endurecida.
É nesse limiar que se revela a condição real do coração, pois Deus, o supremo Agricultor, sonda as intenções mais profundas e distingue entre o choro do arrependimento e o lamento do orgulho ferido. É necessário que as crises sequem a floresta de urgências mundanas para que se veja o que resta sob os espinhos.
Quando o deserto silencia as distrações, o indivíduo é confrontado com a escolha final: render-se à mão que poda ou endurecer-se contra ela. Somente diante da rendição contrita é que a semente do Evangelho deixa de ser um adorno para se tornar o sustento da vida, demonstrando que a misericórdia de Deus é capaz de redimir o terreno mais sufocado, desde que este não se feche definitivamente à voz do Criador.
