Patologia das Nações: O Egoísmo das Castas sob a Lente do Evangelho (Lucas 21:1-4)

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A narrativa da oferta da viúva no Evangelho de Lucas revela uma nuance profunda que muitas vezes escapa aos olhos desatentos, pois não se trata apenas de uma lição sobre fé, mas de uma denúncia contundente contra a exploração sistêmica. 

Antes de observar a mulher entregando suas duas moedas, Jesus adverte severamente contra os escribas e líderes da época, acusando-os de devorar as casas das viúvas sob o pretexto de longas orações. Quando Ele aponta para aquela mulher no templo, está expondo a crueldade de um sistema religioso e econômico que se sentia confortável em receber o último centavo de quem nada tinha para manter a opulência de uma casta que contribuía apenas com a sobra das sobras. 

Jesus não elogia a pobreza em si, mas exalta a dignidade daquela mulher enquanto condena a cegueira das elites que, protegidas por suas tradições e privilégios, haviam perdido completamente a capacidade de enxergar o valor humano acima do acúmulo financeiro.

Essa realidade bíblica serve como um espelho para o mundo contemporâneo, onde a desigualdade social e a miséria são frequentemente usadas como gatilho para questionar a justiça de Deus. No entanto, ao analisarmos as instruções divinas, percebemos que o plano de Deus jamais fundamentou a escassez de muitos para o luxo de poucos; a miséria é, na verdade, o subproduto amargo de um sistema egoísta alimentado por escolhas humanas. 

Nos países mais desiguais do mundo, a estrutura do egoísmo é quase sempre a mesma: a manutenção de castas sociais e políticas que utilizam a lei para proteger suas fortunas. Nesses países, os sistemas tributários, muitos com alíquotas zero ou simbólicas, são desenhados para blindar heranças vultosas,  garantindo que a riqueza extrema permaneça circulando apenas entre os mesmos grupos familiares por gerações sem sofrer qualquer tipo de redistribuição para ajudar a financiar o bem comum.

Quando fortunas ultrapassam as dezenas de milhões ou bilhões sob impostos nulos ou simbólicos, o sistema acaba por criar 'divindades econômicas', figuras que nunca contribuem em proporção à sua abundância para o bem público, enquanto o restante da população arca com a conta. 

Embora a ação de destinar uma parcela desses grandes capitais, por meio de sistemas tributários mais justos, fosse suficiente para amenizar a disparidade nessas nações, tal possibilidade raramente é admitida em países de profunda desigualdade. Nesses lugares, aliás, quando a pressão social exige auxílio à população carente, o sistema evita tocar no topo da pirâmide; em vez disso, prefere remanejar os recursos dos níveis inferiores, perpetuando um ciclo que ignora a razoabilidade e a proporcionalidade em nome da manutenção da ganância.


O Tribunal da Consciência


A mensagem de Jesus contradiz diretamente esse modelo de mundo. Se as virtudes de Cristo, como o amor sacrificial e a justiça misericordiosa, fossem a base das instituições e indivíduos, o mundo seria um lugar radicalmente diferente, onde a simples possibilidade da carência já seria objeto de prevenção. O Evangelho ensina que a autoridade deve ser exercida como serviço e que a riqueza traz consigo uma responsabilidade social proporcional ao seu tamanho. A miséria, portanto, não é uma falha na criação, mas o resultado de uma sociedade que escolheu a proteção das castas econômicas.


 (Lucas 20:47;Lucas 21:1-4)