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| Crédito Imagem: CC0 |
Quando alguém passa por provações e em vez de se voltar para o Criador endurece o coração, o texto bíblico geralmente associa isso ao orgulho ou à insensibilidade espiritual.
Muitas passagens mostram que o sofrimento deveria servir como um despertar para a alma, mas o pecado pode gerar uma resistência obstinada. No livro de Apocalipse 16:9-11, descreve-se que "os homens foram queimados com grande calor, e blasfemaram o nome de Deus, que tem poder sobre estas pragas e não se arrependeram para lhe dar glória".
E nos versículos seguintes relata que "por causa das suas dores e por causa das suas chagas, blasfemaram do Deus do céu e não se arrependeram das suas obras". É o retrato máximo da resistência sob pressão.
O profeta Jeremias também lamenta em Jeremias 5:3 dizendo:
"Senhor, não atentam os teus olhos para a verdade? Feriste-os, e não lhes doeu; consumiste-os, e recusaram receber a disciplina; endureceram as suas faces mais do que a rocha; recusaram-se a converter-se".
No sofrimento, o orgulho impede a pessoa de admitir que precisa de um socorro que não vem dela mesma. Além disso, nem todo sofrimento gera mudança, pois existe uma distinção entre a tristeza que vem de Deus e a do mundo.
Paulo explica em 2 Coríntios 7:10 que "porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte".
Aqui compreendemos a diferença entre o quebrantamento que salva e a aflição que mata. Enquanto a tristeza guiada pelo espírito produz uma mudança de rota permanente e leve, a tristeza terrena presa ao medo do castigo ou à vaidade ferida é um caminho sem saída. O apóstolo Paulo diferencia o choro que cura o coração do clamor que apenas acelera a ruína da alma.
Na história bíblica, o Rei Acaz é citado como um exemplo negativo específico desse comportamento em 2 Crônicas 28:22, onde se lê que "e, no tempo da sua angústia, antes mais transgrediu contra o Senhor; ele mesmo, o rei Acaz".
Para a Bíblia, o sofrimento é uma oportunidade de refino. Quando alguém se recusa a buscar a Deus na dor, perde a chance de transformar o vale em um lugar de crescimento, tornando o sofrimento algo estéril e amargo.
As pessoas tendem a medir sua bondade olhando para o lado em uma comparação horizontal, usando um padrão humano em vez do divino.
Elas acreditam em uma moralidade do mérito, sentindo-se injustiçadas pela dor em vez de instigadas à reflexão. O ser humano possui uma capacidade quase infinita de criar narrativas para se manter como o herói da própria história, racionalizando o mal e transferindo a culpa para a vítima ou para o sistema.
O coração enganoso é descrito em Jeremias 17:9, que diz que "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?".
Existe um estado espiritual onde a bússola moral quebra completamente, e Isaías 5:20 faz um alerta severo dizendo: "ai dos que ao mal chamam bem, e ao bem mal; que fazem das trevas luz, e da luz trevas; e fazem do amargo doce, e do doce amargo".
Quando alguém comete algo grave e não sente necessidade de Deus, é porque reescreveu o código moral na própria cabeça.
O exemplo de Caim ilustra bem essa falta de empatia, pois em Gênesis 4:9 ele responde com ironia ao ser questionado por Deus dizendo: "não sei; sou eu guardião do meu irmão?".
Ao receber a sentença em Gênesis 4:13, Caim apenas reclama dizendo que "é maior a minha maldade do que a que possa ser perdoada", ou conforme outras traduções, "meu castigo é maior do que eu possa suportar".
O Salmo 36:1-2 descreve essa estrutura psicológica ao dizer que "a transgressão do ímpio diz no íntimo do meu coração: não há temor de Deus perante os seus olhos, porque em seus próprios olhos se lisonjeia, até que a sua iniquidade se descubra ser detestável".
O maior pecado é a incapacidade de admitir o erro. Se a pessoa acha que não fez nada de errado, ela fecha a única porta pela qual o auxílio divino poderia entrar, que é o arrependimento. Sem o reconhecimento da queda, o sofrimento se torna apenas revolta.
