EU SOU O QUE SOU (Êxodo 3:14)

Peninsula do Sinai - Crédito Imagem: Stefan Perneborg

A declaração “EU SOU O QUE SOU”, revelada a Moisés no episódio da sarça ardente em Êxodo 3:14, permanece como um dos enunciados mais enigmáticos e profundos da história humana.

 A dificuldade em considerá-la apenas uma invenção cultural de mais de um milênio antes de Cristo está na sofisticação metafísica que carrega, um verdadeiro ponto fora da curva em relação ao pensamento predominante da Idade do Bronze. Por volta de 1400 a.C., a filosofia sistemática ainda não existia; o pensamento racional dos gregos surgiria apenas séculos mais tarde, e mesmo então nada seria formulado com esse peso ontológico.

O ambiente em que Moisés se encontrava era o do Egito Antigo, marcado por um politeísmo rico em mitos e narrativas. Os deuses daquela cultura eram concebidos como figuras limitadas, com nomes próprios, formas físicas e funções restritas a elementos da natureza, como o sol, o rio ou o submundo. Eram seres que nasciam, lutavam e estavam sujeitos às mesmas dinâmicas da existência humana. Em contraste absoluto, o termo hebraico Ehyeh asher Ehyeh, revelado em Êxodo 3:14, traz em sua raiz o verbo ser ou estar, apresentando uma divindade que se define pelo fato de que Ele É.


A Ruptura com o Pensamento Mitológico

Essa revelação representa um salto intelectual extraordinário, substituindo o pensamento mitológico concreto por uma abstração ontológica pura. No original hebraico, o termo Ehyeh carrega uma profundidade que desafia traduções simples, pois reside no aspecto imperfectivo e sugere uma existência que não se limita ao agora, projetando-se continuamente. Ao dizer “EU SOU”, a divindade não apenas se coloca em um eterno presente, mas revela uma presença ativa que abarca o ser, o fui e o serei em um único e absoluto feixe de existência.

Enquanto a ciência e a filosofia modernas entendem o tempo como uma sucessão linear de causa e efeito, essa formulação rompe a cronologia. Deus não é um ente sujeito ao devir, ou seja, alguém que se transforma ou depende do fluxo temporal, mas Alguém que simplesmente É. Ele se apresenta como a Causa Não Causada, a autoexistência que não deriva de nada externo, desafiando a lógica da finitude humana e estabelecendo o Ser como o fundamento de toda a realidade.

O enigma torna-se ainda mais impressionante quando percebemos que, naquele período, não havia o suporte da física ou da metafísica clássica para discutir a natureza do tempo. Mesmo assim, a afirmação já estabelecia a ideia de um Ser que habita fora da cronologia, uma declaração de autoexistência e infinitude. Sugere que quem registrou tal mensagem acessou uma percepção da realidade que transcende completamente o conhecimento técnico e cultural de sua era.

Assim, a frase “EU SOU O QUE SOU” carrega um caráter transcendental porque dissolve a necessidade de começo ou fim, revelando um nível de consciência que continua a desafiar nossa compreensão atual. É uma expressão que, ao mesmo tempo, inaugura uma nova forma de pensar e permanece como um mistério que resiste ao esgotamento racional, convidando cada geração a refletir sobre o sentido último da existência.