Uma Análise do Filme A Missão (1986) Sob a Ótica do Evangelho (Provérbios 14:12)

Crédito Imagem: Divulgação

O filme "A Missão" de 1986, é inegavelmente, uma obra cinematográfica marcante e repleta de cenas esteticamente inspiradoras que retratam o amor ao próximo, a entrega e o sacrifício. No entanto, quando observamos a jornada e as escolhas de seus protagonistas sob uma ótica estritamente pautada pelos Evangelhos, com o intuito de extrair lições para a nossa edificação espiritual, percebemos que as resoluções encontradas pelos personagens acabam se distanciando de alguns ensinamentos centrais de Jesus Cristo no Novo Testamento.

Ao analisar a narrativa sob essa lente, a complexa jornada de Rodrigo Mendoza, interpretado por Robert De Niro, nos oferece uma profunda reflexão. Primeiro, somos tocados por sua intensa cena de arrependimento e busca por redenção. Com um coração visivelmente contrito e esmagado pela culpa, ele carrega uma pesada armadura cachoeira acima, em um esforço físico extremo para deixar para trás o seu passado como opressor. É inegável que há ali uma mudança genuína de atitude, pois ele passa a amar, servir e conviver pacificamente com o povo que antes escravizava.

O Contraste Entre o Autoflagelo e o Dom Gratuito de Deus

Contudo, há uma nuance importante no personagem: a sua necessidade inicial de "pagar" pelo próprio pecado através do autoflagelo já demonstrava uma sutil dificuldade em aceitar o perdão como um dom gratuito e imerecido da Graça de Deus. Afinal, a transformação verdadeira é puramente obra da graça de Deus (Efésios 2:8-9). O comportamento inicial do personagem, marcado por um senso de justiça particular e autoflagelo, evidencia uma falta de fé genuína em sua completude. A sua falha está em não descansar no perdão gratuito oferecido por Cristo, tentando compensar seus pecados por meios próprios, o que revela ausência de plena confiança na graça.

⁸ Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isso não vem de vós, é dom de Deus.

⁹ Não vem das obras, para que ninguém se glorie.

Efésios 2:8-9

Essa confiança nas próprias forças culmina em um forte contraste mais à frente. Quando a missão se vê sob ameaça militar, Mendoza cede à teimosia e decide abandonar a mansidão de seus novos votos, retomando a via da espada. Ao tentar defender os indígenas com as mesmas armas de seus algozes, ele age de forma contrária ao Evangelho, ignorando a instrução direta de Jesus a Pedro no Getsêmani: "Guarda a tua espada; pois todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão". Embora alguns pudessem defender a resistência armada como legítima em contextos de opressão, é importante lembrar que Jesus não pregou a luta contra o império romano. Pelo contrário, Ele ensinou o respeito e a submissão às autoridades terrenas (Mateus 22:21; Romanos 13:1). Mendoza cai no erro de confiar em armas humanas, ignorando que o Reino de Deus não se estabelece pela força. Naquele momento de crise, ele esquece que a agressão não deve ser devolvida na mesma moeda.

Sacrifício Sem Endosso

Outro aspecto que convida à ponderação é a atitude do Padre Gabriel. Ao caminhar em procissão em direção aos tiros, sua postura de recusa às armas flerta com uma espécie de estoicismo ou sacrifício performático, distanciando-se da prudência ensinada por Jesus, que ensinou seus discípulos a serem "prudentes como as serpentes e simples como as pombas" e, em caso de perseguição em uma cidade, a fugirem para outra. O sacrifício de Gabriel poderia, aos olhos de muitos, ser visto como um martírio admirável. Porém, a mensagem cristã é diferente. O martírio de Estêvão, por exemplo, ocorreu porque ele foi acusado e levado a julgamento no Sinédrio, testemunhando contra a teimosia das autoridades religiosas e sua rejeição a Cristo (Atos 7). Gabriel, ao contrário, caminha deliberadamente para o confronto armado, como se desafiasse o exército imperial de frente — algo que o Evangelho jamais endossa. Dessa forma, ele acaba substituindo a sabedoria e a prevenção bíblicas por um drama ritualístico.

A Verdadeira Estratégia Apostólica

Essa inclinação do roteiro em focar no dramatismo ganha ainda mais nitidez quando observamos a prática apostólica registrada em Atos e nas Epístolas. O comportamento histórico dos discípulos contrastava fortemente com o que vemos na tela. Embora seja verdade que os apóstolos enfrentaram autoridades e, logo, pudessem ser comparados aos personagens, é essencial notar que os confrontos dos apóstolos não eram contra o exército romano e suas espadas. Eles não foram ensinados a orar de forma performática em frente a uma legião romana armada, mas sim a buscar a Deus no secreto (Mateus 6:6). Eles utilizavam de estratégia, discrição e oração.

Quando perseguidos e ameaçados de morte (Atos 14:6), utilizavam rotas de escape se escondendo de forma prudente. Mais do que uma simples busca por sobrevivência, esse recuo tinha um propósito maior: garantir que a pregação do Evangelho não fosse silenciada. Ao preservar a vida da comunidade, eles asseguravam a continuidade da missão e a expansão ininterrupta da mensagem, exercendo com clareza o discernimento ensinado pelo Mestre.

Nesse sentido, de forma quase involuntária, o filme acaba se tornando uma poderosa parábola sobre as consequências das nossas escolhas. Tanto a violência de Mendoza, que confiou em suas táticas terrenas, quanto a performance do padre Gabriel, que tentou usar o simbolismo religioso como estratégia para causar comoção e culpa moral no exército inimigo, falharam em proteger a comunidade.

Ao contemplar o desfecho trágico dessas estratégias puramente humanas compreendemos, afinal, a profundidade dos desvios teológicos da trama: a obra nos ensina, por meio do erro dos personagens, que quando as ações se afastam da prudência do evangelho e da total dependência de Deus, elas perdem a sua eficácia espiritual, reafirmando que os princípios do Novo Testamento são sempre o caminho mais seguro para a verdadeira edificação.

Nota — Sobre o Martírio de Estêvão e a Ação de Gabriel

Na comparação com o martírio de Estêvão (Atos 7), uma distinção importante, Estêvão não escolheu ir ao encontro da morte como estratégia — ele foi levado a julgamento, respondeu com verdade quando interrogado, e o martírio foi consequência disso, não um plano deliberado. A iniciativa não partiu dele. Gabriel, por outro lado, toma a iniciativa de caminhar em direção ao confronto armado, operando por convicção própria e lógica simbólica — como se o gesto pudesse causar comoção moral no exército inimigo. O problema central, portanto, não é apenas a imprudência da ação, mas a ausência de mandato divino. O martírio bíblico aparece consistentemente nas Escrituras como consequência da obediência, nunca como instrumento de pressão moral de iniciativa humana. Abraão não subiu ao monte para impressionar a Deus — obedeceu. Os apóstolos não se entregaram às autoridades romanas como gesto dramático — foram presos ao pregar. A distinção genuinamente cristã está, portanto, entre sofrer as consequências da obediência e fabricar um confronto por iniciativa própria, o que revela que a imprudência de Gabriel tinha raízes teológicas mais profundas do que um simples erro de julgamento.