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| Ruas da cidade antiga de Tayma, oásis no noroeste da Arábia mencionado como parada de caravanas em Jó 6:19. Crédito Imagem: Richard Mortel - CC BY 2.0 |
Há processos cujo sentido só se revela em retrospecto. Enquanto decorrem, apresentam-se como atraso, como falha, como um silêncio desproporcional à intensidade do sofrimento envolvido.
Somente depois — quando a resposta se manifesta, ou quando se reconhece que ela já operava desde o princípio — a espera se define pelo que sempre foi: providência, não abandono.
Essa é a trajetória de Jó. E é essa passagem — da queixa à adoração, da suspeita ao reconhecimento — que encerra o livro de um modo que nenhuma das perguntas do redemoinho havia antecipado:
¹² E assim abençoou o SENHOR o último estado de Jó mais do que o primeiro.
Jó 42:12
No desfecho da narrativa, Jó sintetiza sua própria transformação numa declaração de rara densidade:
⁵ Eu te conhecia só de ouvir; mas agora os meus olhos te veem.
Jó 42:5
Antes da provação, Jó já era íntegro, temente a Deus e diligente na intercessão pela própria família. Não lhe faltava instrução religiosa nem prática de piedade. O que lhe faltava era de outra natureza: o conhecimento que não se adquire em estabilidade, porque nela não é exigido.
Certos aspectos do caráter divino permanecem latentes enquanto a estrutura da vida se mantém intacta. É a ausência dessa estrutura que revela se a fé professada era herança doutrinária ou relação efetiva.
A mudança em Jó, portanto, não é a substituição de uma teologia incorreta por outra correta, mas a passagem do relato ao encontro — de saber a respeito de Deus a conhecê-lo.
Grande parte da inquietação humana decorre de uma confusão entre demora e negação. Diante de uma resposta que não chega no tempo esperado, de um projeto que se desfaz, de um caminho que se fecha, a conclusão mais imediata é supor esquecimento ou erro na condução dos acontecimentos.Jó experimentou essa confusão em sua forma mais extrema.
O desfecho do livro, contudo, reordena o sentido de toda a espera: nada do que Jó perdeu revelou-se definitivo, e nenhum instante da espera revelou-se supérfluo. A restauração não sobreveio apesar do atraso — sobreveio porque havia um tempo determinado, imperceptível a Jó, mas nunca inexistente.
Jó alcançou um conhecimento de Deus que a prosperidade anterior não lhe havia proporcionado.
É por essa razão que, quando o próprio Deus o instrui a orar por aqueles que o haviam acusado injustamente, Jó o faz sem triunfalismo nem amargura remanescente. Não se trata de atribuir valor positivo ao sofrimento em si, mas de reconhecer que Deus tomou a ruína e a converteu em fundamento de uma fé mais consistente.
Fica a lição para as nossas próprias esperas: esses momentos podem ser apenas o caminho pelo qual passamos a conhecer verdadeiramente Aquele que conduz a história.
